

Gosto de observar quando as pessoas estão sérias, concentradas, particularmente quando ocupadas com gestos estéreis, quase involuntários. Parecem mais sinceras, desprendidas da atmosfera que as cerca durante todas as horas do dia. A simplicidade de cada movimento e, principalmente, de cada expressão revela, num curto instante, as nuances dos pensamentos verdadeiros, distraídos, como rostos sem maquiagem, como naquelas fotos únicas, onde está registrado um momento tão espontâneo e simples que é impossível captá-lo novamente.

Isso me chama a atenção porque a transparência tem sido um aspecto raro de se encontrar. Tanto moldamos e remoldamos esta nossa massa ao longo da vida - num esforço constante para fazê-la parecer uma obra de arte - que às vezes esquecemos de que cor ela é, quão singular é sua textura.
"Enquanto você se esforça pra ser/ um sujeito normal/e fazer tudo igual..." E consumir tudo igual e vestir tudo igual e pensar tudo igual e falar tudo igual... o tempo vai passando, as horas se perdendo... Para que? Quantas coisas mais nos farão entrar nesta mesma embalagem padronizada - vistosa por fora e escura por dentro - em que entramos todos os dias ?